|
|
|
|
Fazenda do Pinhal
Redação Selecionada |
Luana Marcelli Luibiana Botelho
Tema: o poder do Homem na família patriarcal do século XIX
Título: Casamento (bem) arranjado
Objetivo da escrita: abordar de maneira suave questões como o poder do pai e a obediência total dos filhos às suas ordens.
Ganhei hoje um vestido simplesmente lindo de papai. É a última moda em Londres. Perguntei a ele o motivo para o recebimento deste presente tão magnífico, e papai apenas me respondeu: "Um pai não pode fazer um agrado a sua bela filha? Vá, peça à mucama que ajude com o vestido!" Enquanto a negra ajudava-me a apertar o sufocante espartilho, papai, longe do biombo, começou a proferir um discurso que me deixou extremamente aflita: "Na verdade, Isabelle" - começou ele - "há sim um bom motivo para estar recebendo esse presente. Hoje virá aqui em casa o Conde Valença, um grande fazendeiro que, assim como eu, é dono de muitas terras e, recentemente, pediu-me sua mão em casamento." Nesse momento, meu coração parecia ter parado. Senti minhas mãos frias e meu corpo enrijeceu. Senti a mão da mucama sobre meu ombro, como se solidária ao meu espanto, e agradeci mentalmente seu toque encorajador.
"Perdão, meu pai" - disse eu, tentando, em vão, parecer mais clama - "Acho que não compreendi muito bem. Quer que eu me com um velhaco, praticamente desconhecido?!"
"Ora, Isabellle, irá se casar com quem eu bem desejar e deve demonstrar contentamento! Já está com dezesseis e, se muito me demorar para escolher um noivo, dentro em breve ninguém há de querê-la para desposar. Lembre-se de que minha palavra é lei nessa casa, mocinha. Esteja pronta para o jantar. E esteja linda."
Meu digníssimo pai, o justo e tão respeitado Conde Arruda Botelho, dono da grande Fazenda do Pinhal, não é tão justo assim quando se trata de vender sua filha para o primeiro homem rico que pede minha mão. Oh Deus, grande Senhor! Ajude-me pois não quero ter a mesma sina de minha mãe, que casou sem amor e definhou até a morte, amargurada!
Ao descer as escadarias em direção à sala de visitas, na hora marcada, parecia uma princesa. Nunca antes me senti tão bela. O vestido, de fino corte, ao contrastar seu vermelho com o branco de minha pele, a realçava. Meus cabelos, presos em um coque respeitável e discreto, davam-me uma aparência mais madura, embora não mais velha. Entretanto, era possível ver através de meus olhos, cinzas e, naquele momento frios como o gelo, meu descontentamento e minha infelicidade. Eu sabia que o tal Conde Valença era um nobre já velho, muito rico, mas sem nenhum pudor, que tratava suas escravas como ninfas e deitava-se com todas. Ademais, já era pai de cinco moços mais velhos do que eu, e sua esposa havia falecido ao parir o mais novo. Na realidade, a última notícia concreta que tive da família Valença foi, exatamente, o falecimento da senhora Antonieta, esposa do conde. Mas isso foi há, pelo menos, três anos atrás. Deus meu! Por que tamanho castigo?
Enquanto descia as escadas, uma súbita falta de ar me acometeu, devido à dificuldade que estava tendo em respirar, graças ao espartilho londrino. Santo e Deus Triúno! As moças londrinas devem ter aprendido a arte de não respirar por longos períodos, ao contrário, como conseguiriam utilizar tal coisa? Bom, o fato é que eu já estava nos últimos degraus da escada, quando desfaleci, só vindo a acordar quando um certo rapaz me fez inalar alguma coisa com cheiro extremamente desagradável e forte. E que rapaz!
Seus grandes olhos verdes me olhavam com profunda preocupação. Entretanto, quando o encarei, abriu um imenso sorriso maroto. Por um instante acreditei que havia morrido e estava no céu, mas então ouvi a voz rabugenta de meu pai e percebi que não estava no céu coisa nenhuma. Ele exclamou: "Isabelle, por Deus, que papelão desfalecer na frente de seu noivo!"
"Noivo?" - perguntei completamente abalada - "mas achei que iria me casar com o velhaco Valença!"
Ao ouvir essas palavras, foi a vez de meu pai quase desmaiar. Acredito que "velhaco Valença" não seja uma expressão muito adequada. Entretanto, o jovem rapaz riu de meu espanto e disse: "Perdão, gentil senhorita, mas acredito que fez uma pequena confusão. De fato, o tal "velhaco" era meu pai que, infelizmente, faleceu no ano passado, deixando-me seu nome e sua fortuna, visto que sou seu filho primogênito."
"Oh!" - disse apenas, sentido meu queixo cair.
Então, agora tenho um noivo que, embora tenha sido escolhido por meu pai, me parece um excelente partido.
Talvez as coisas não sejam tão ruins assim...
| Estudo do Meio | Galeria de Trabalhos |